iwsmall.gif (5602 bytes) Artigo
Argumentação
Sólida

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Escrito por Sergio Navega, Setembro de 2000
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Neste pequeno artigo pretendo apresentar de forma resumida alguns dos pontos que abordo no seminário Argumentação Sólida. Leia também alguns trechos de meu livro sobre pensamento crítico e argumentação. Veja algumas transparências do seminário. 

Argumentos Fazem Parte De Nossa Vida

Boa parte de nosso dia-a-dia é consumida em atividades que lidam com linguagem. Falamos ao telefone, escrevemos memorandos, respondemos a e-mails, participamos de reuniões. Uma parte do que escrevemos e lemos tem caráter meramente informativo. Mas uma parte substancial (e talvez de grande importância) tem a ver com textos que lidam com argumentações. Argumentar é defender um ponto de vista através do suporte com premissas. No seminário fazemos uma explanação detalhada das formas ideais de argumento, distinguindo-as de outras estruturas de comunicação (opiniões, descrições, questões, explicações, etc). No argumento escrevemos algumas premissas e, através delas, suportamos e concluimos algo. Portanto, um argumento é uma defesa de uma alegação que fazemos.

Onde Usamos Argumentação?

Se você estiver propondo um aumento de salário, se estiver apresentando uma nova idéia para a diretoria, se estiver justificando uma decisão que tomou, em todos esses casos você irá lidar com a construção de argumentos para suportar suas alegações. Se estiver sendo atacado, se sua decisão está sendo criticada, se algum subordinado estiver "inventando uma estória" para escapar de responsabilidade, nesses casos você também estará lidando com a interpretação e avaliação de argumentos oponentes. Em quase todos os casos, manipular argumentos pode ser uma tarefa penosa e difícil, que requer boa dose de atenção. Veremos neste breve artigo que isto é uma tarefa que pode ser facilitada quando se conhece algumas típicas falácias de argumentação.

O Que São Falácias de Argumentação?

Falácias são erros típicos de estrutura, composição, coerência, aceitabilidade ou suporte de argumentos. Há tantos desses erros (no seminário apresentaremos a você mais de 35 tipos) que dá para construir muita bobagem.

Durante o seminário veremos vários exemplos práticos de falácias, mas aqui vamos nos concentrar apenas em uma infeliz passagem:

O escritor Mario Vargas Llosa recentemente posicionou-se contrário à intervenção do governo na publicidade de cigarros. O Governo quer proibir certos tipos de propaganda e isto provocou esta reação de Vargas Llosa:

"O álcool e uma dieta pobre também são grandes assassinos. Deve o governo regular o que vai à nossa mesa? A perseguição à indústria do fumo pode parecer justa, mas pode também ser o começo do fim para a liberdade"
Veja 23 Ago/2000, pg 36

Nunca li nada do Vargas Llosa, portanto não posso afirmar nada sobre sua qualidade como escritor. Parece que é tido como um dos grandes. Mas esse seu argumento é de arrancar os cabelos. Para a análise que se segue, tenham em mente a seguinte estrutura:

{ premissa, premissa, premissa...} ---> "Governo não deve proibir a propaganda de cigarros"

Veja o que dá para dizer de seu texto (clique nos links para ver uma transparência sobre a falácia):

"O álcool e uma dieta pobre também são grandes assassinos."

Non sequitur   Alcool e dieta pobre nada implicam em relação à proposição do governo de proibir propaganda do fumo
Analogia Imprópria Dieta pobre não possui semelhanças interessantes com o fumo; não é, por exemplo, um vício ou algo que a pessoa tenha dificuldades de se livrar (exceto se sua situação econômica for precária!)
Red Herring Tentativa de desviar o foco do problema para outros mais fáceis de atacar (proibir propaganda de bebidas alcoólicas seria um ato mais fácil de atacar, por causa do maior clamor público em contrário)


"Deve o governo regular o que vai à nossa mesa?"

Apelo à Emoção Apela-se ao medo coletivo de o governo influir em nossa mesa, em uma tentativa de associação com estados ditatoriais
Apelo ao Ridículo Tentativa de desacreditar o argumento do governo baseado em uma sugestão cômica e ridícula


"A perseguição à indústria do fumo pode parecer justa..."

Acento Impróprio A frase "pode parecer justa" estaria implicando que o ouvinte deve pré-julgar a proposta do governo como sendo enganadora, escondendo intenções maliciosas. Isto já prepara o leitor para tentar achar pontos falhos na argumentação do governo, mesmo que esses pontos não existam.


"...mas pode também ser o começo do fim para a liberdade"

Descida
Escorregadia
Não há como justificar que essa proibição em particular vá descambar para o total tolhimento da liberdade dos indivíduos, algo muito mais sério

 

Quantas falhas, não é? Talvez a principal falha seja a última, a descida escorregadia. Não é porque o governo intervém na propaganda de fumo que devamos esperar sua intervenção em todas as liberdades individuais. Este argumento não é válido mesmo em uma situação muito mais forte, aquela na qual o governo estivesse proibindo as pessoas de fumar (ou seja, tornando o ato de fumar ilegal). Mesmo nesse caso, sem ver quais são os argumentos do governo para fazer isso, não dá, a priori, para usar desse subterfúgio (veja quadro ao lado). O argumento de Llosa nada diz contra as razões que devem ter sido usadas para suportar a iniciativa do governo. Permitir a propaganda de cigarros indiscriminadamente pode conduzir certas pessoas (principalmente jovens menores) a buscar o tipo de satisfação apresentada nos anúncios típicos, como sensação de independência, juventude, vigor físico, relacionamento social, facilidades sexuais, todos valores desejáveis mas sem nenhuma relação direta com o vício do fumo.    Proibindo Totalmente o Fumo:
É necessariamente injustificável?
Suponha que o governo proponha ao congresso proibir o fumo de cigarros normais, em todo o território nacional. Por essa proposta, ninguém mais poderia fumar um cigarro sem ser preso e processado. É certamente uma medida altamente impopular e sujeita a toda sorte de críticas, podendo ser encarada por alguns como "o fim das liberdades individuais". Mas a questão é: podemos julgá-la inválida sem ouvir os argumentos do governo? É possível descartar essa proposta simplesmente porque é ultrajante? Imagine que um grande grupo de respeitados cientistas tenha, consensualmente, descoberto que o fumo produz gases raros e previamente desconhecidos que, acima de determinada concentração na atmosfera, provocam câncer generalizado em todas as pessoas do planeta, mesmo nas não fumantes. Imagine que estejamos a ponto de superar essa concentração limite, a partir da qual os danos aos pulmões são irreparáveis. Evitar que se supere esse patamar seria, obviamente, motivo suficiente para tornar o ato de fumar justificadamente ilegal, pois a sobrevivência da humanidade estaria em risco! A situação é altamente hipotética mas demonstra que nunca podemos rejeitar um argumento sem ouvir suas premissas. Se desejamos atacar o argumento, teremos que atacar as premissas que o suportam (validade, aceitabilidade, suporte, etc).

Associar esses valores universalmente aceitos com o vício do fumo seria um abuso injustificável da publicidade de cigarros. É essa linha de raciocínio que Vargas Llosa deveria ter se preocupado em atacar, caso quisesse criticar com sucesso a iniciativa do governo. 

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Referências

Listamos a seguir algumas referências sobre as quais baseamos nosso seminário de Argumentação.

Baron, Jonathan (1994) Thinking and Deciding. Cambridge University Press.

Capaldi, Nicholas (1987) The Art of Deception. Prometheus Books.

Damer, T. Edward (1995) Attacking Faulty Reasoning. Wadsworth, Inc.

Dauer, Francis Watanabe (1989) Critical Thinking. Oxford University Press

Groarke, Leo A.; Tindale, Christopher W.; Fisher, Linda (1997) Good Reasoning Matters. Oxford University Press.

Dawes, Robyn M. (1988) Rational Choice in an Uncertain World. Hartcourt Brace & Company.

Honderich, Ted (editor) (1995) The Oxford Companion to Philosophy. Oxford University Press.

Schick Jr., Theodore; Vaughn, Lewis (1999) How to Think About Weird Things. Mayfield Publishing Company.

Shermer, Michael (1997) Why People Believe Weird Things. W. H. Freeman and Company, New York.

van Eemeren, Frans H.; Grootendorst, Rob; Henkemans, Francisca S. (1996) Fundamentals of Argumentation Theory. Lawrence Erlbaum Assoc. Inc.

Wade, Carole; Tavris, Carol (1998) Psychology. Addison Wesley Longman, Inc.

Warburton, Nigel (1996) Thinking from A to Z. Routledge

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